Meu primeiro peixe no Xingu – As aventuras de Leo Rocha

Eu tinha dez anos e ainda não tinha pescado nenhum peixe. Todo dia eu atravessa a aldeia, rodeando por trás das malocas, pegava a trilhinha e varava no porto. Todo dia eu levava anzol e linha, porque era o que eu tinha. Tinha trazido da cidade, mas peixe….peixe eu ainda não havia conseguido nenhum.

Pois um dia eu estava lá, tentando a minha pescaria de menino e apareceu um curuminsinho de uns três anos. Ele vestia um cintinho azul de missanga, nada mais.

– você tem anzol pequeno? –ele me perguntou.

Eu tinha, e dei a ele. Ele sozinho amarrou a linha no anzol, se afastou um pouquinho e começou sua pescaria. Curuminsinho do cinto azul pescava peixinho pra isca. Pescava peixinho bem pequenino como ninguém.

O curumim me trouxe então um isca para eu usar. Agora sim, pensei. Eu esta usando a isca errada. Engatei o bichinho no meu anzol e joguei a linha.

Eu já tinha percebido que quando eu jogava a linha e logo em seguida puxava, tinha um peixe que as vezes dava uma fisgada, parecia que quase, quase, quase sempre eu pegava. Então, com o peixinho brilhante na ponta do anzol eu joguei dessa fez o mais longe que pude. O meu longe de 10 anos. Até que era longe. E dessa vez  eu vi aquele bicudo – peixe bicudo – uau, na hora, o peixe bicudo “pá”, peguei. Peguei! Peguei!

Foi a minha glória de menino! O bicudo era grande assim. Eu estava muito feliz, queria mostrar pra Paru, que era meu pai ali na aldeia, pros meus amigos, meu troféu! Mas quando eu me virei animado pra sair, fui catando minha tralha, o curuminsinho do cinto azul falou benzinho assim:

  • ei, esse peixe é meu.

Esse peixe é meu? Como assim? – eu pensei.

O curuminsinho esticou o braço e abriu a palminha da mão. – Dá.

Dei meia volta, arriei minha tralha novamente e dei meu lindo bicudo àquele indiozinho.

Viramos sócios. Ele me fornecia isca, eu fornecia anzol pequeno, ele pescava o peixinho, eu pescava os peixões, peguei mais uns dois talvez. Fizemos fogo e comemos juntos, ali mesmo.

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