História da Miçanga

Elas traziam o colorido das pedras preciosas e a rigidez dos dentes e das conchas. Mais, mais do que isso. As miçangas dos brancos traziam a própria força e o o poder do inimigo encapsulados em contas de vidro. Os índios então a pegaram, a transformaram e incorporaram o seu poder. Os antigos contam que por anos e anos, Kaxinawas viajaram noite a dentro pela floresta procurando pela gigante árvore de contas coloridas. Mas o fato é que Colombo aqui aportou e trouxe com ele sacos e mais sacos das continhas coloridas – objeto de escambo e pacificação dos indígenas, carga obrigatória nos navios que saiam para as colônias. Entre os anos 1400 e 1500 a Europa abrigava uma produção em massa de miçangas voltada para a exportação. Uma moeda que caiu no gosto dos povos recem-contactados das Américas. Mas a historia das miçangas nos leva a lugares e tempos ainda mais longínquos. “Elas teriam aparecido na Ásia ocidental, na região do Cáucaso, na Mesopotâmia e no Egito, em torno de 2340 a.C. Foi no Egito, em torno de 1350 a.C., onde funcionou a primeira fábrica, patrocinada pelos faraós. Assim as contas de vidro se tornaram rapidamente acessíveis a população com certo poder aquisitivo”, coloca a antropóloga Els Lagrou, no artigo No Caminho da Miçanga: arte e alteridade entre os ameríndios. Mas foram os Romanos, por sua vez, que distribuíram as contas de vidro mundo afora. “Todos os lugares em que os romanos estiveram, eles trouxeram miçangas para trocar…desde o norte da Escandinávia ate o oriente, sul da China, Coréia, Iran, Síria, Mali e Etiópia, quantidades de miçangas do período Romano tem sido encontradas em cada um desses países, frequentemente levantando a questao sobre sua origem devido a semelhança de seus padrões e técnicas de fabricação”, coloca a antropóloga. No Brasil, mesmo aqueles que não estiveram tête-`a -tête com Colombo, conheciam também o encanto das continhas. Assim como os brancos, os índios aqui também faziam os seus moitarás. “Antigamente tinha os negros que vinham lá do Suriname, trazendo miçanga, terçado e pano vermelho….”, explica o indígena joao Tiriyó. A miçanga, hoje importada da República Checa, mostra que o Outro precisa ser incorporado e pacificado e não aniquilado e destruído. É o que Els Lagrou denominou de “estética indígena de pacificação do branco”. O “purista” vê na miçanga um sinal de poluição estética, resultante da substituição da matéria-prima extraída do ambiente natural por materiais industrializados. Mas, pelo contrário, o trabalho em contas de vidro deve ser visto como manifestações legitimas de uma cultura que se mantem viva e dinâmica. Veja exemplares na nossa loja.

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