Compromisso com o Resgate da Cultura Tribal – Leo Rocha Arte Indigena

Leo Rocha e sua esposa Flávia tinham acabado de abrir as portas do pequeno comércio de arte indígena quando souberam do encontro de lideranças de diversas aldeias que acontecia em Cuiabá, há exatamente um ano atrás.

Sem saber ao certo como chegar e o que dizer, procuraram alguns indígenas, talvez antigos conhecidos, para falar: “abrimos uma loja e gostaríamos muito de comprar de vocês”. “Mas, do que vocês precisam?” – perguntou o curumim de etnia Mehinako. “Daquilo que vocês não fazem mais” – Leo Rocha respondeu. O curumim fez cara de bravo e deu um leve recuar. Como assim? O que não se faz mais, não existe mais! – curumim pensou na língua aruak.

Então Leo arriscou: pau de fazer o fogo, você tem? Sem nada dizer, curumim respondeu negativamente com a cabeça. Depois disse que só dois senhores de muita idade ainda sabiam fazê-lo e, portanto, daquilo quase não se via na aldeia.

– Então eu quero bastante desse – falou Leo Rocha. O curumim desconfiou. Era novo, não chegou a conhecer Leo na aldeia, mas o reconheceu da televisão.

Depois de mais de um mês curumim voltou. Trazia a encomenda. Loja pequena, ainda com pouco dinheiro, mas o casal comprou todos os 50 paus de fazer fogo que o curumim trouxe.

Curumim aprendeu a fazer o que só dois velhinhos sabiam fazer. Curumim aprendeu para sempre o que só dois velhinhos sabiam fazer. Leo abriu um modesto sorriso e fechou os olhos. Consegui – pensou em silêncio, na língua aruak talvez. Sentiu que começava a retribuir por tudo o que viveu no Xingu. Naquele momento nascia Leo Rocha Arte Indígena.

Leo Rocha Arte Indígena se apresenta como um espaço cultural. Guarda um acervo de peças autênticas de mais de vinte etnias brasileiras. Remos, arcos, cestas, cabaças e bancos a beça. Sem contar os colares de caramujo, as pulseiras de tucum, as tiaras de algodão nativo, além de peças de coleção, como os colares de criança Enawene Nawe, feitos de tucum sextavado ou as perneiras femininas de látex.

Um museu disfarçado. Uma aula de história, sem se cansar. Cada peça do acervo apresenta não só uma etiqueta com toda a sua referência: etnia, artesão, região, mas traz também histórias de índio e informações de cunho antropológico.

“A ideia é que esse peça que sai hoje daqui vá para a casa de alguém que vai zelar pela nossa cultura material. Como se cada um abrigasse peças de um grande museu. Pode ser que amanha não se produza mais peças iguais a essas. Ao comprar a pessoa esta fazendo uma ação em favor da cultua indígena”, explica o casal. É nesse sentido que a loja pretende divulgar a arte dos povos tradicionais – mostrando, tocando, encantando – para engajar o branco nessa causa de índio: Resgatar a cultura.

Avani, mae do Leo, é quem nos recebe no espaço. Ela conhece as peças, as plantas do quintal, ela faz parte da história que ela mesma conta. Conversa sobre Leo Rocha, sobre os índios e nos apresenta todo esse universo tribal.

Um compromisso com o Xingu

Na hora em que o curumim girou o corpo curvado de tanto peso nas costas, o saco cheio de pau de fazer fogo caiu e fez um estrondo seco no chão da loja. Pof – Uma leve poeira levantou. Quando isso aconteceu, estranho, Leonardo sentiu que dele saia também um peso das costas.

Desde que começou, no final de 2011, as gravações da Discovery Chanel para o programa Desafio em Dose Dupla Brasil, Leo Rocha só pensava numa maneira de retribuir para os índios tudo o que com eles aprendera. A grande sacada, a bola da vez agora mostrada em rede mundial eram as técnicas de sobrevivência de conhecimentos indígenas. Raízes que curam, folhas e frutos silvestres comestíveis, construção de abrigos, fazer o fogo da maneira mais primitiva. Um conhecimento adquirido a partir de duas temporadas que Léo Rocha passou no Xingu – uma aos 11 anos e outra aos 17. E ele sentia agora, mais do nunca, no compromisso de devolver e agradecer.

Sim. Ele sentia, porque Leonardo é sentimento – no trabalho, no mato, com as pessoas, com as plantas, com a madeira. Não foi por acaso que eu fui parar no Xingu – ele pensava a todo momento. E como aquilo fez tanto sentido na sua vida, na sua criação, nos seus ofícios e saberes, no seu íntimo.

Ate que ele foi pela terceira vez ao Xingu, em 2014 e, ao visitar os parentes, caiu no inevitável: “Leonardo, compra de mim”, “Leonardo compra minha esteira”, “Leonardo compra isso e aquilo”. Porque todo mundo queria ver aquele menino branco que morou ali quando pequeno. Todo mundo queria um pedacinho dele. E, não conseguindo dizer não pra um, não pra outro, voltou pra casa com um bucado de arte indígena. Comprar era o que ele podia fazer naquela hora, pra dar uma força. Mas, comprar assim não dava mais. Só havia uma alternativa pra continuar e poder um dia nunca dizer não: vender.

Casa tradicional reformada por Leo Rocha

Distante uns 100 metros do vuco vuco da praça, é preciso explorar e descobrir esse espaço que abriga a Léo Rocha Arte Indígena. Uma casinha antiga de adobe, estreita e cumprida. De telhado baixinho, de barro também. Casinha de caboclo, sem corredor, onde um cômodo da no outro, que da no outro, que da no outro, ate que chega, enfim, num tradicional quintal de Chapada, farto de bananas, abacates, um pé de anis, inhames e um pe de mamão caipira daqueles vermelhos, de mais de vinte anos, alguns plantados por Léo ou pelos antigos donos.

As janelas são feitas de Aroeira – madeira de reaproveitamento. Madeira dura, raramente usada para trabalhos como esses. As portas, pivotantes, sem dobradiça, são feitas de Teca. Nos caixilhos, entalhes de madrepérola, marchetaria e ate pó de ouro nos buraquinhos e falhas da madeira antiga– “defeitos especiais”, como Leo Rocha costuma dizer. Na porta de entrada, uma borboleta de concha em tons de rosa encrustada na madeira. Uma marcenaria diferente de tudo!

“Eu aprendi a ser marceneiro brincando, fazendo meus brinquedos. Quando eu era criança minha mãe falou: você quer caminhãozinho? Então eu vou levar você no cara que faz e você vai varrer a oficina dele e ajudar ele no que ele precisar, observar ele trabalhar pra aprender. E nessa de observar pra aprender e ela me estimulando, eu fui me interessado mais pela marcenaria. Quando tinha alguém que sabia, eu colava nele e aprendia aquilo ai outro e outro. Aprendi como funciona  estrutura de telhado, duma casa e as relações da física na prática – vivendo, pegando, quebrando”, explica Leonardo.

Leo Rocha possui uma relação muito intima no trabalho com a madeira. Ele é capaz de caminhar com você num assoalho de madeira e te dizer a idade que aquelas peças tinham quando foram derrubadas – através dos fincos, das marcas claras e escuras.

Uma relação de intimidade, assim como o índio que fica dias imerso no mato confeccionando bancos tradicionais em formato de animais. Ele consegue entalhar traços perfeitos dos músculos da onça no seu caminhar, da expressão da cara felina.

Leo Rocha fica imerso em sua marcenaria, em Chapada dos Guimaraes. A sua mais recente obra é uma porta de madeira que nos remete a entrada de uma grande oca Xinguana – um tronco de uma árvore bifurcada colocado de ponta cabeça. Esse é o caixilho. Roliço, mas altamente bem lixado e acabado. Apresenta marchetaria em diversos tons de madeira, conchas de abalone e madrepérola do Pantanal encrustadas na grande peça. Da forquilha saem as estruturas de madeira laterais que fixam os vidros das vitrines. Fachada de uma loja que mais parece uma joalheria. Talvez essa seja a intenção – ver a arte dos povos tradicionais com um outro olhar. Inaugura esse mês Leo Rocha arte indígena no aeroporto internacional de Cuiabá.

BOX:

Xingu – uma imersão no mundo das madeiras

Os índios uma vez me perguntaram, quando eu voltei lá aos dezessete anos:  quem você é no mundo do branco? Qual a sua utilidade? A pergunta me atingiu numa profundidade marcante. E ai eu quis me colocar no mundo do branco como marceneiro, tanto pra descobrir quem eu sou de verdade, mas também pra me expressar com relação ao que eu gostava desde criança e que estava muito ligado ao trabalho com madeira.

Eu vim do Xingu com o objetivo de me manter exercitando. Estar apto pra receber o conhecimento indígena  foi a grande força para eu querer sempre aumentar minha habilidade manual.  E o que aconteceu foi que minha vida inteira eu estudei marcenaria. Foi uma forma que eu quis de me manter no mundo do branco financeiramente, mas exercitando minha habilidade.

No Xingu, rolou uma imersão total no mundo das madeiras, das fibras, das consistências. Chega ao ponto de eu ir numa serraria pra escolher uma madeira e eu nem precisar olhar a peça inteira. Eu olho só o topo dela e eu sei qual eu quero. Pelo tipo de crescimento que ela teve, eu sei se ela teve doença, broca, rachadura.

O lugar que a árvore cresce altera a consistência da madeira de uma mesma espécie. Uma madeira de um crescimento num lugar difícil, duro, pedregoso, tem uma consistência completamente diferente de uma madeira que nasceu no conforto, na beira dum rio.

A madeira é um negócio vivo. Dizem que ela demora pra parar de trabalhar o mesmo tempo que ela demorou pra crescer. Até a lua mexe com ela. Assim como a lua atrai e repulsa a água, a madeira também vai receber ou expulsar mais água, vai sofrer pressões.

Numa época de seca ou chuva ela tambám vai apresentar bastante diferença. Porque vai ter mais água no ar ou menos água no ar, e ela vai absolver mais água ou soltar toda água dela.

Até considerando,  lá nos finalmente, o lado da árvore. Os marceneiros nem imaginam um negócio desse:  o ocidente e o oriente da madeira. Tem um lado da madeira que toma o sol da manha, o outro lado toma o sol da tarde. Um tem uma característica, o outro tem outra. O lado da manha sempre vai ser mais macio, com as fibras mais espaçadas e flexíveis. O lado da tarde vai ser mais rígido, mais pesado e denso, com anéis mais próximos.

Com muitos anos de marcenaria você vai entendendo qual a característica de madeira é preciso pra cada trabalho.

Banco de Madeira Xinguano

Para fazer um banco xinguano é preciso entrar e ficar na mata por pelo menos uma semana. Primeiro o índio adentra a floresta procurando sua árvore. Roxinho, lixeira, piranheira. No facão e no machado ele a derruba com ajuda de parentes. Tronco pesado, impossível carregá-lo até a aldeia. É preciso dividir em partes. Uma árvore pode render muitos bancos, depende do tamanho do banco, tamanho da árvore.

Se a peça for muito grande os primeiros entalhes precisam ser feitos ali mesmo no mato. Mais entalhe, menos madeira, mais leve pra carregar no ombro até a aldeia.

Em casa, na oca, com calma e precisão o índio xinguano faz os acabamentos necessários, imprimindo na peça toda sua intimidade com o animal. Num rosto de madeira, a expressão certeira de um macaco ou o formato dos músculos da onça no seu caminhar.

Por último a pintura. Jenipapo faz o preto, urucum o vermelho. O pincel: uma tala de buriti, da mesma maneira como pinta seu próprio corpo. Expressa nas cores traços da natureza: as ondas do rio, pele de cobra, casca de árvore. Encrusta na peça sua marca: o grafismo xinguano.

Por fim os olhos. Um pouco de cera de abelha preta serve como cola, e uma simples conta de caramujo, redondinha feita na faca, brilha os olhos do animal. Um acabamento sutil, mas fatal.

Os olhos do banco de madeira brilham. As vezes, tamanha perfeição, parece que se mexem, sonho que andam por ai. Não sei se ganham vida….uma energia animal….

 

Etnia: Mehinako

Localização: Parque Indígena do Xingu – Mato Grosso

População: 254 (Ipeax 2011)

Tronco Linguístico: Aruak

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